2026: o ano em que o mercado imobiliário deve crescer sem fazer barulho

Entre reformas tributárias que finalmente saem do papel, juros que ensaiam uma trégua, programas habitacionais que combinam escala com tecnologia e uma reconfiguração silenciosa das fontes de crédito, o ano que se aproxima promete ser de consolidação. Não de explosão, mas de amadurecimento. E talvez seja exatamente isso que o setor mais precisa.

A Reforma Tributária e o fim da zona cinzenta

Comecemos pelo óbvio que insiste em não ser óbvio: a reforma tributária importa menos pelo seu impacto fiscal imediato e muito mais pelo que ela representa como reorganizadora do mercado. A partir de 1º de janeiro de 2026, inicia-se o ano-teste da cobrança de IBS e CBS nos documentos fiscais. É a primeira engrenagem de uma máquina que, até 2033, substituirá cinco tributos por um sistema dual de IVA.

A promessa é sedutora: menos cumulatividade, crédito tributário recuperável sobre insumos, transparência na cadeia produtiva. Na prática, isso significa que construtoras, imobiliárias e prestadores de serviços que sempre operaram formalmente terão vantagem competitiva ampliada. Quem vivia na zona cinzenta — reformas sem nota, serviços “por fora”, contratações informais — sentirá o cerco da fiscalização digital.

Vale o lembrete: o setor imobiliário conta com regras de transição específicas e redutores de alíquota que ainda dependem de regulamentação fina via Leis Complementares. Mas o movimento geral está claro. Até onde pude rastrear, os ajustes aprovados pelo Congresso contemplam redutores para imóveis populares e mecanismos que, teoricamente, evitarão aumentos dramáticos de carga. O Ministério da Fazenda projeta queda de até 5,5% no custo de imóveis de R$ 200 mil, enquanto os de R$ 2 milhões subiriam modestos 2,3%.

O que me parece mais relevante, contudo, é o efeito indireto: um mercado mais transparente tende a atrair funding mais barato e investidores mais sofisticados. A longo prazo, isso vale mais que qualquer benefício fiscal pontual.

Selic: o monstro que virou animal de estimação

Falemos agora da taxa Selic, que encerra 2025 em patamares de dois dígitos historicamente desafiadores — precisamente 15% ao ano. Há uma década, esse número paralisaria incorporadoras, congelaria lançamentos e esvaziaria estandes de venda. Mas algo mudou. O mercado foi, digamos, domesticado pela realidade.

As projeções do Boletim Focus indicam que o Banco Central iniciará cortes graduais ao longo de 2026, com a taxa podendo encerrar o ano em torno de 12% a 12,5% — ainda em dois dígitos, mas respirável. Não é milagroso, mas é suficiente. Cada ponto percentual de queda na Selic representa cerca de 7% a 8% de redução no valor da parcela mensal do financiamento. Para um comprador de classe média, isso é a diferença entre caber ou não caber no orçamento.

Mas o dado que me impressiona não está nos números da taxa em si, e sim no comportamento do setor diante dela. Os números da Abecip mostram que, mesmo com juros elevados em 2025, o volume de crédito imobiliário manteve-se robusto — não nos patamares de 2020-2021, é verdade, mas historicamente relevante.

Há uma maturidade silenciosa acontecendo. O mercado brasileiro finalmente entendeu que precisa operar em cenários de juros estruturalmente diferentes da década de 2010. E está aprendendo.

Demografia: o bônus que muda de formato

Outro pilar frequentemente negligenciado: o Brasil ainda está surfando o bônus demográfico. Temos massa populacional concentrada na faixa produtiva, gerando renda e demandando moradias. Dados do IBGE confirmam que o pico populacional só virá em 2041.

Mas não se trata de contar cabeças — trata-se de contar lares. Mesmo quando a população estabilizar em números absolutos, a formação de novas famílias continuará.

REARP: Riscos e Benefícios na Regularização Patrimonial

Regime oferece tributação de 4% para quem antecipar pagamento, mas regra de 5 anos pode anular benefício; especialista alerta para riscos e exceções

Regime Especial de Atualização e Regularização Patrimonial (REARP), novo instrumento tributário para o mercado imobiliário, permite atualizar o valor do imóvel para o preço de mercado atual no Imposto de Renda, pagando 4% sobre a diferença entre valor declarado e real. No entanto, mesmo com uma economia potencial, o benefício exige cautela.

Segundo a colunista do Estadão Maria Carolina Gontijo, o REARP “é a versão tributária de uma ‘promoção relâmpago’: recolha um pouco agora, para evitar pagar muito mais no futuro”.

Como funciona a nova tributação

Especialistas explicam que os imóveis entram na declaração de renda pelo custo histórico, ou seja, pelo valor pago na época da compra, sem correção monetária. A diferença entre esse valor e o preço de venda gera ganho de capital, tributado em até 22,5% conforme a faixa.

O ganho de capital é tributado em 15% para valores até R$ 5 milhões; 17,5% entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões; 20% de R$ 10 milhões a R$ 30 milhões; e 22,5% acima de R$ 30 milhões.

Com o REARP, o contribuinte antecipa parte da tributação, atualizando o bem ao valor real e pagando 4% sobre a valorização passada. Um imóvel declarado por R$ 300 mil, mas valendo R$ 800 mil, pode gerar economia significativa no imposto futuro.

Porém, existe uma trava importante: se o imóvel for vendido antes de cinco anos, a atualização é anulada. O contribuinte volta a ser tributado como se nunca tivesse aderido ao regime.

Imóveis antigos, principalmente das décadas de 1970 e 1980, já contam com redutores significativos no cálculo do ganho de capital. Nesses casos, aderir ao REARP pode ser desvantajoso, alerta a especialista.

Segundo algumas imobiliárias dizem que a isenção na venda de imóvel residencial para compra de outro em até 180 dias pode zerar o imposto sem necessidade de antecipação, tornando o regime desnecessário em alguns casos.

Tendências de arquitetura que valorizam imóveis em 2025

O desempenho de um imóvel no mercado imobiliário está diretamente relacionado à qualidade do seu projeto arquitetônico. Em 2025, algumas diretrizes técnicas se consolidam como fundamentais para agregar valor comercial e patrimonial aos empreendimentos. A seguir, destaco os principais conceitos arquitetônicos que influenciam a valorização dos ativos imobiliários.

Eficiência Energética e Construção Sustentável

A sustentabilidade tornou-se uma exigência técnica e mercadológica. Projetos que adotam estratégias bioclimáticas — como orientação solar adequada, ventilação cruzada, brises móveis, coberturas verdes e uso de materiais de baixo carbono — não apenas reduzem o impacto ambiental, mas também aumentam a eficiência operacional do imóvel.

Certificações como LEED, AQUA-HQE e EDGE têm ganhado peso na avaliação de imóveis comerciais e residenciais de médio e alto padrão, sendo um fator de diferenciação competitivo no mercado.

Flexibilidade Programática

A configuração flexível dos espaços é uma das grandes tendências arquitetônicas de 2025. Ambientes adaptáveis — seja através de divisórias móveis, design modular ou pé-direito ampliado — permitem que o imóvel acompanhe mudanças no perfil de uso ao longo do tempo.

No mercado residencial, plantas reversíveis que possibilitam a conversão entre dormitórios, home offices e espaços de lazer interno são altamente valorizadas.

Estética Contemporânea de Baixa Complexidade Formal

A preferência por projetos de linguagem minimalista, com volumetria limpa e paleta material neutra (concreto aparente, pedra natural, madeira clara e metálicos foscos), reflete não apenas uma questão estética, mas também uma racionalização construtiva que reduz custos de manutenção futura.

Detalhamento técnico apurado, paginações precisas e acabamentos de alta durabilidade são aspectos que reforçam a percepção de valor do imóvel.

Áreas Comuns como Extensão da Unidade Privativa

Nos empreendimentos multiusuários, as áreas comuns se transformam em verdadeiras extensões das unidades privativas. Espaços de convivência, coworkings compartilhados, rooftops ajardinados e áreas de lazer climatizadas são desenhados para oferecer conforto, segurança e bem-estar.

Do ponto de vista arquitetônico, a integração entre interiores e exteriores, através de grandes vãos, elementos de sombreamento e paisagismo funcional, é um diferencial técnico que impacta positivamente a percepção do ativo.

Infraestrutura para Tecnologia e Domótica

A arquitetura de 2025 incorpora, desde a fase de projeto, a infraestrutura para sistemas de automação predial. Projetos elétricos, hidráulicos e de dados são desenvolvidos prevendo redes integradas para controle remoto de iluminação, climatização, segurança e áudio/vídeo.

A compatibilização técnica entre a arquitetura e os sistemas inteligentes reduz retrabalhos em obra e facilita upgrades futuros, aspectos que aumentam a longevidade e a atratividade do imóvel no mercado.

Mobilidade Urbana e Localização Estratégica

A localização continua sendo um dos fatores primordiais de valorização imobiliária, mas agora acompanhada da análise técnica de acessibilidade urbana. Proximidade de estações de transporte público, bicicletários, rede cicloviária, infraestrutura de serviços e zonas de baixo carbono (ZLC) são variáveis consideradas nos estudos de viabilidade arquitetônica.

A arquitetura contemporânea, portanto, deve dialogar com o tecido urbano, propondo soluções que favoreçam a mobilidade ativa e a integração do empreendimento com a cidade.

Em 2025, a valorização imobiliária passa necessariamente por uma arquitetura que seja eficiente, flexível, tecnicamente precisa e ambientalmente responsável. Incorporar esses princípios desde a concepção do projeto é uma estratégia essencial para gerar imóveis mais desejados, com maior liquidez e melhor desempenho no longo prazo.